Relatório 4 – Buscando Gabriel Buchmann Por Cristina Reis
"Oi turma, dois dias se passaram desde o último relato e muita coisa aconteceu por aqui. Primeiramente, descreverei o dia de ontem, o segundo de vôo do helicóptero. Subimos ao Chisepo Hut eu, André e o Vice-Consul José Cruz. Lá ficamos enquanto as canadenses sobrevoavam principalmente a área Sul, Lichenya e Nakodzwe, além de revisar partes já buscadas anteriormente.
Emocionei-me bastante por lá. Primeiro, por entrar e sentir como é a cabana onde Gabriel dormiu antes de se perder. Vi o livro de presença, onde dois canadenses registraram que ele desaparecera. Soube também com mais detalhes a história de Linda, a holandesa que desapareceu alguns anos atrás. Ela saiu para ler um livro, mas de repente o tempo mudou e ela nunca mais foi vista. No entanto, sinto que este não será o fim do Gabriel, pois quando me pergunto como ele está, recebo a resposta de que está vivo.
Em segundo lugar, a montanha é muito linda...vê-la do alto já foi espantoso, mas eu realmente a senti ao pisar e caminhar rumo ao Sapitwa. Para quem tem espírito aventureiro, como a minha turma de amigos e a do Gabriel, a escalada não parece difícil - lembra muito Itatiaia.
Consegui compreender perfeitamente a intenção do Gabriel em deixar tudo na cabana e sair bem cedinho para ir rapidamente até o pico, fotografar, talvez meditar um pouco e depois descer rumo à Moçambique. Mas infelizmente ele foi pego por uma abrupta mudança de tempo.
No topo, pude conversar com metade da equipe canadense e muitos guias locais, além de dois americanos que estavam envolvidos nas buscas desde o começo da operação. Eles afirmaram que toda a área mais provável em que o Gabriel pudesse estar já foi vista e revista cuidadosamente, tanto a pé quanto por helicóptero. Nesta terça-feira, eles regressariam para que, contando com a ajuda dos bombeiros do Estado do Rio, fizéssemos uma grande reunião para pensar na estratégia dos próximos passos.
- Também conheci o guia que acompanhou o Gabriel em sua subida. Ele contou que os dois conversavam amistosamente, que o Gab lhe contou sobre sua viagem e que estava com pressa para ir para Moçambique.
- O guia disse que Gabriel ia mais rápido do que ele. Como tinha intenção de voltar no mesmo dia- ainda que fosse à noite, lhe pediu para voltar e pegar sua mala pequena, com medo de que o posto de entrada da montanha fechasse. Isso porque Gabriel conheceu a casa do guia antes, tinha feito uma visita antes da subida.
Saber esses detalhes me acalmou, pois quando não temos a informação completa do que aconteceu, muitas dúvidas e a angústia rondam nossos pensamentos. E o mesmo vale para a angústia do tempo que está levando para encontrar o Gabriel... Só mesmo indo até a montanha e a subindo para entender sua dimensão e a complexidade de encontrar alguém em tão vasto lugar, repleto de fendas e grutas, florestas e cachoeiras, grandes altitudes e pedras.
À tarde, fomos na tribo Makombo procurar a chefe Rose Chibisa para a realização da cerimônia para pedir que o Gabriel fosse encontrado. Ela remarcou para hoje.
Durante a manhã, resolvemos questões operacionais das buscas e da equipe aqui no Mulanje, além dos detalhes sobre a vinda dos bombeiros do Estado do Rio de Janeiro e do outro tio do Gabriel, o Lúcio. Ao meio dia, André e eu fomos encontrar a chefe da tribo para o ritual. Ela não estava pois alguém na cidade tinha morrido. Não me surpreendi com esse fato pois desde sábado tenho sentido que muitos obstáculos vem se colocando no caminho de tal ritual...mas ao mesmo tempo, forças positivas contra-atacam.
- Por exemplo, meu irmão, após muito penar para encontrar um pote de barro, foi atropelado por uma bicicleta, o que ocasionou a quebra do tal pote. Por sorte, um local, que soube que o André estava procurando esse artefato, veio até o escritório onde eu estava para vender um pote, e que comprei por segurança.
Depois de saber que a chefe só voltaria às 2 da tarde, eu e André fomos caminhando em direção da montanha, em busca de um lugar tranqüilo e perto da floresta para realizar a oferenda. O André apontou para uma pedra acima de um morro, no meio de uma plantação de chá, de frente pra montanha e no seu sopé. Fizemos uma oração e uma oferenda para que Oxossi trouxesse Gabriel de volta. Pedi para que as forças da natureza o ajudassem (na mioho rengue kio). André e eu pedimos que a montanha fosse clemente com Gabriel e o libertasse. Pedimos para que ele seja encontrado logo.
Daí voltamos a tribo, a chefe não estava, mas o amigo que fez a tradução entre nós (Cydric) estava lá. Ele informou que o ritual fora realizado ontem. Dez pessoas participaram. Cydric disse que o Gabriel está vivo. E recomendou que a gente falasse com o chefe de outra tribo. Após muitas idas e vindas, finalmente falamos com o chefe Mbea. Ele transmitirá amanha nosso pedido de ajuda a 3 outros chefes de tribos, convocando-os para uma discussão sobre o que fazer para o Gabriel ser encontrado (ou libertado dos espíritos). Vão me mandar um e mail (isso mesmo, e mail!) contando sobre o que decidiram.
Neste fim de tarde, os líderes de guias locais, Moises, Steve e Rex vieram relatar seus pareceres sobre as buscas até agora. Dado tudo o que já foi vasculhado, eles concluíram que tem 3 ações importantes a ser feitas:
- Vasculhar as grutas no alto da montanha, do lado leste – onde tem um pico chamado Nakodzwe seguido de várias fendas.
- Olhar novamente o Sul e Sudeste, no Lichenya valley, que é uma região MUITO difícil por causa da floresta. Mesmo assim, o guia local em que mais confio, Moises, se enfiou por 4 dias com mais 11 homens nesse lugar, mas nada encontrou. Acho que os bombeiros poderão ser muito importantes para fazer uma busca cuidadosa aqui.
- Conversar com os locais que cortam madeira ilegal ao pé e no meio da montanha, pra saber se alguém abrigou Gabriel.
Assim, amanhã de manha, às 8 horas, esses líderes, juntamente com a família (Joaquim, Lúcio, André, eu), os canadenses, os diretores da MMCT (Carl e David) e o vice-onsul José Cruz nos reuniremos para decidir os próximos passos, já pensando como incluir os bombeiros nas buscas.
Parto para o Brasil amanhã, poderei contar mais detalhes pessoalmente. Penso que estamos fazendo tudo que podemos para ajudar o Gabriel a ser encontrado, racionalmente e espiritualmente. Continuemos com fé.
Beijos,
Titi"
Cris estamos mandando muita energia positiva!
Vai dar certo!Muita força e fé!